O mundo assistiu estarrecido aos desdobramentos da série de ataques terroristas que atingiram Paris em cheio no último final de semana. Não demorou até que militantes Estado Islâmico (EI) reivindicassem os atos que deixaram mais de cem mortos na França.
Nascido das cinzas
da rede Al Qaeda no Iraque, o grupo está consolidando o seu domínio na
Síria e Iraque e espalhando a sua barbárie em zonas de influência que
compreendem diferentes países, como o Egito e a Líbia.
A
quantidade de militantes que lutam pelo estabelecimento do califado é
incerta, mas sabe-se que entre eles há homens e mulheres de várias idades e nacionalidades. O que leva essas pessoas a se juntarem aos extremistas tampouco é consenso entre especialistas.
O
analista sírio Hassan Hassan, natural da província de Deir-Ezzor, que é
hoje controlada pelo EI, investigou a história do grupo e com o
jornalista Michael Weiss (do The Guardian) escreveu o livro “Estado Islâmico – Desvendando o Exército do Terror”,
lançado neste ano no Brasil e já à venda. Nele, são revelados os
bastidores dessa que é uma das milícias mais perversas em atividade hoje
no Oriente Médio.
Em entrevista para EXAME.com,
Hassan conversou sobre diversos aspectos em torno do EI, que
compreendem desde o seu surgimento, as diferenças com a Al Qaeda e
também sobre o que, afinal, o torna tão atraente a ponto de conquistar
militantes por todo o mundo.
Confira abaixo os destaques da entrevista:
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EXAME.com –Quais os principais fatores por trás do surgimento do EI no Iraque?
Hassan Hassan –
Muitos comandantes do alto escalão do EI vieram do regime de Saddam
Hussein e detém ou já detiveram posições-chaves no seu conselho militar.
Entre eles, estão Abu Abdul-Rahman al-Bilawi, ex- capitão do exército
iraquiano, Abu Ali al-Anbari, ex- oficial, e Abu Ayman al-Iraqi, ex-
tenente e ex-prisioneiro dos EUA.
Todos
eles são ex- baatistas (partido que tinha Saddam como um dos líderes)
que acreditam na ideologia do EI. São ainda responsáveis pela sua
estruturação e se tornaram líderes por conta das suas experiências.
O
EI permite que seus comandantes possam agir sem que seja necessário
consultar superiores e o papel de Abu Bakr al-Baghdadi é mais de líder
supremo. É ele que toma as decisões mais importantes, aponta ou remove
comandantes de seus postos e analisa os relatórios enviados por
militantes na Síria e no Iraque.
Mas
se olharmos para o EI apenas sob a perspectiva de seus dogmas, ou por
nosso prisma de contraterrorismo, vamos superestimar e subestimar o
grupo ao mesmo tempo.
O EI
nos fez debater até sobre como devemos chamá-lo e se é islâmico ou não.
Mas esses debates são distrações. Você pode chamar o EI de Bette Midler
se quiser e ainda assim não faria diferença para quem vive em Raqqa
(cidade síria que se tornou a capital do califado).
Além
do pragmatismo e da experiência, as visões políticas do EI são
atraentes para muitas pessoas da região, especialmente para aqueles que
acreditam que os sunitas foram oprimidos ou esquecidos pelos governantes
recentes. E essas tensões sectárias são uma das principais ferramentas
de recrutamento do EI.
Muitas
pessoas que não necessariamente apoiam a brutalidade ou acreditam na
teologia do grupo o apoiam porque creem ser este o único grupo que está
efetivamente lutando pelos sunitas e contra o governo predominantemente
xiita no Iraque e o regime alauíta na Síria.
EXAME.com – Quais as principais diferenças entre o EI e a rede Al Qaeda?
Hassan Hassan –
O EI surgiu da Al Qaeda e ambos dividem semelhanças ideológicas, mas se
distinguem em suas táticas e ideias teológicas. A diferença mais
importante é a posição do EI em relação aos xiitas.
Enquanto
a Al Qaeda foca no chamado “inimigo distante”, que é o Ocidente e
Israel, o EI foca no “inimigo próximo”, que são os xiitas e os sunitas
que se opõem ao grupo. Crê ser mais importante a luta contra muçulmanos
que considera apóstatas.
E é
por essa razão que, com raras exceções, o grupo mata muçulmanos. O EI
carrega uma ideologia sectária e conta com uma rica literatura para
validar a sua visão contra os xiitas. Mas também trava campanhas contra
os sunitas.
Com exceção do “Massacre do Campo Speicher”, quando o EI executou soldados iraquianos
em Tikrit, as matanças foram cometidas contra sunitas. Quase todas as
decapitações, imolações e afogamentos no último ano envolveram oponentes
sunitas.
Já a Al Qaeda
segue uma estratégia diferente e não considera os xiitas como infiéis,
como o EI. A rede também rejeita a ideia de ter mesquitas e civis xiitas
como alvos e a sua liderança tem criticado repetidamente essa
estratégia do EI.
EXAME.com – O que torna o EI tão atraente para algumas pessoas?
Hassan Hassan – Há
dezenas de razões que explicam por que uma pessoa se junta ao EI. Há
motivos ideológicos, mas a maioria deles é pragmático e político.
Há
dois grupos mais perigosos: os radicais de longa data que acreditam nas
ideias extremistas do EI e os jovens que foram doutrinados. Esses
dificilmente serão ser convencidos do contrário. E é nestes grupos que
estão a maioria dos voluntários que vieram do Ocidente.
Entrevistamos
dezenas de combatentes e constatamos que eles acreditam firmemente na
ideologia do EI, ainda que tenham se juntado ao grupo por outras razões.
A maioria deles é jovem, com cerca de 20 anos de idade.
Eles
expressam gosto pela a “dawla” (a palavra em árabe para Estado) e
pensam nela como uma entidade poderosa que irá protegê-los enquanto
muçulmanos sunitas. É o califado que sempre sonharam e estão dispostos a
sacrificarem tudo para mantê-lo.
É
muito difícil não perceber o entusiasmo com o qual falam sobre o grupo.
E é esse o maior perigo que o EI oferece e é o que faz as pessoas
desejarem se juntar a ele.
EXAME.com
– O braço sírio da rede Al-Qaeda na Síria, Frente Al-Nusra, domina
territórios próximos de áreas controladas pelo EI. É possível que esses
grupos entrem em conflito?
Hassan Hassan - A
Frente está em Guerra com o EI há cerca de dois anos. Em Deir-Ezzor,
centenas de seus combatentes foram mortos pelo EI antes de ele invadir a
província e expulsar a Frente de todo o leste da Síria.
Atualmente,
ambos operam em diferentes áreas, então há menos confrontos entre eles.
Mas na região sul da Síria, por exemplo, há uma batalha em curso e a
hostilidade deve aumentar a medida que o EI continue a crescer no sul e
norte do país.
O EI enxerga
os militantes da Frente como apóstatas e os odeiam mais que qualquer
outro grupo, pois consideram que seu líder traiu al-Baghdadi, que formou
uma espécie de “startup” da Frente na Síria em 2011.
EXAME.com
– Como você vê as tentativas da coalizão liderada pelos EUA para conter
os avanços do EI na Síria e no Iraque até o momento?
Hassan Hassan – Mais
de um ano se passou desde que os bombardeios aéreos começaram no Iraque
e na Síria e o que vemos é que o EI permanece incontestável em seus
territórios, como Mosul (Iraque) e Raqqa (Síria). O EI só foi contido em
áreas onde os curdos e os xiitas eram maioria e permanece assim até
agora.
Mas, apesar dos
bombardeios, o EI tem conseguido dominar largas e significativas porções
de territórios. Veja Ramadi, por exemplo, uma cidade que o grupo tenta
capturar há anos. Os militantes já derrotaram o exército iraquiano por
lá apesar da cobertura aérea da coalizão. E esse não é o único exemplo:
temos outros como Palmira e Aleppo (Síria).
A
coalizão internacional foi bem-sucedida nos locais nos quais há tropas
em solo que podem se locomover pelo território do EI, como aconteceu em
Tikrit. Mas esse modelo não está funcionando na Síria, pois falharam em
trabalhar com forças locais que não os curdos, que são eficientes dentro
dos seus territórios. Quando os curdos ou os xiitas lutam em regiões de
maioria sunita, isso apenas ajuda o EI.
E é por isso que o grupo está bem posicionado e permanecerá assim por muitos anos: não há uma estratégia boa para combatê-lo.
EXAME.com – O EI é tão forte quanto parece?
Hassan Hassan – O
EI é uma das milícias mais perversas operando na Síria e no Iraque. Em
muitos casos, o EI é tão forte quanto parece. Como detalhamos no livro,
ele tem olhos e ouvidos fora das áreas sob seu controle.
Um
oficial de segurança com quem conversei me explicou que o EI aprendeu
com os erros do passado e está enviando espiões para outros países e
regiões para tentar juntar informações de inteligência e entender os
planos existentes para combatê-lo.
O
EI vem ainda criando células dormentes em cidades e vilarejos por toda a
Síria e Iraque antes de efetivamente realizar incursões nesses locais.
Assim, ao atacar a área, seus combatentes já têm informações suficientes
para realizar manobras rápidas e estabelecer o controle.
O
grupo é mais eficiente que outros países e até governos locais no
trabalho com as tribos. Ele sabe com quem trabalhar, sabe também quem é
seu alvo e não vai esperar por uma rebelião para derrubá-lo.
E
é por isso que se nota uma espécie de blackout total nas áreas
dominadas pelo EI, pois no momento em que ele entra, rapidamente ganha o
controle e elimina os seus rivais e críticos.
Claro
que o EI usa mais do que a mera brutalidade para garantir o domínio.
Ele age como Estado e estabeleceu duas coisas muito necessárias:
segurança e proteção. Até mesmo seus opositores reconhecem que
sequestros e matanças arbitrárias desapareceram quando o EI assumiu
algumas regiões.
Essa é uma
ferramenta eficiente de recrutamento, especialmente em locais nos quais o
caos reinou por anos por conta do colapso do Estado. O EI regula todos
os setores e executa serviços. Muitas pessoas, mesmo que críticas da
selvageria, não enxergam alternativas melhores.
EXAME.com
– Como sírio, deve ser difícil ver o seu país nessa situação terrível.
Qual é o sentimento geral hoje na Síria? Há espaço para acreditar em um
futuro melhor?
Hassan Hassan – É difícil pensar que a Síria irá se reestruturar, pelo menos no futuro próximo.
O Estado entrou em colapso na maior parte do país e é quase impossível
que o exército consiga recuperar as áreas que estão hoje nas mãos dos
rebeldes, pois não tem recursos ou legitimidade aos olhos da população.
Os extremistas estão se beneficiando desse vácuo e da selvageria do regime para estabelecer um ponto de apoio na Síria. A situação está se tornando cada vez mais complexa. E o colapso do governo de Assad só irá piorar o quadro, mas a sua sobrevivência também.
Enquanto
ele for o líder, os jihadistas irão alegar ter a legitimidade e as
pessoas vão continuar a se opor ao governo. Uma solução política não é
viável, mas um processo político pode ser o ponto de partida para a
reconstrução da Síria ou no mínimo irá evitar que a situação se
deteriore ainda mais.
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